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quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Ressentimento e Câncer

Há alguns anos, comecei o atendimento de uma mulher de meia idade, que tinha o diagnóstico de câncer. Ela estava em tratamento e se encontrava bastante debilitada. Buscava sessões de Reiki para aliviar os seus sintomas, bastante dolorosos.

Toda semana o marido a acompanhava e ela não perdia uma sessão sequer, já que saía das sessões se sentindo melhor.

A medida em que fomos trabalhando, ela me relatou sua história familiar. Na infância teve uma família estruturada e feliz. Ela era a mais nova de três irmãs e o pai tinha uma situação econômica bem confortável. Ela via inúmeras vezes quando ele ajudava financeiramente outros membros da família, sempre que necessário. Ela tinha os brinquedos que queria e estudava nas melhores escolas.

Quando tinha dez anos, o pai morreu num acidente. Foi tão repentino e doloroso pra ela, sendo ainda pequena e perdendo seu porto seguro. Viu a mãe ir vendendo o que tinham, pouco a pouco se desfazendo de tudo e o dinheiro acabando. A mãe não tinha experiência profissional alguma e as irmãs, já adolescentes, precisaram arrumar emprego.

Ouviu a mãe chorar baixinho durante noites seguidas e isso lhe partia o coração. Viu a mãe pedir ajuda aos familiares e ninguém se dispôs a dar algum tipo de ajuda. Viu a mãe e as irmãs serem humilhadas e desprezadas por duas tias, que já haviam sido ajudadas financeiramente pelo pai algumas vezes. As tias diziam que os bons tempos haviam acabado e que estava na hora delas verem o que era a vida. Essa atitude foi vista por ela como injusta e cruel e ela as odiou por isso. Ao mesmo tempo, se sentia incapaz de reagir e sentia muita raiva, mágoa e rancor por essas tias.

As coisas foram se ajeitando, elas foram crescendo e aprenderam um novo modo de vida mais simples. Se formaram, casaram, tiveram filhos. Ela era feliz no casamento, amava seu marido e tinha a profissão que escolheu.

Nunca deixou de odiar as tias. Não entendia como a mãe e as irmãs as haviam perdoado e esquecido. Nunca perdeu a oportunidade de ignorá-las e se manter longe delas.

Conversamos muito sobre isso e quando ela se referia a essas duas tias, o ressentimento estava ali, palpável. Sugeri uma regressão de memória mas ela se recusava. Eu disse a ela que, segundo pesquisas médicas, o câncer tinha muito a ver com ressentimento. A grande maioria dos pacientes diagnosticados tinha um histórico  onde a mágoa e o ressentimento estavam presentes. E que era de grande ajuda se ela aceitasse se livrar desse sentimento. Perceber que ele não lhe trazia coisas boas e decidir abrir mão dele.

Ela me olhou nos olhos em silêncio por algum tempo. 
Eu esperei. 
Se ela aceitasse, talvez pudesse se curar ou viver mais um pouco. Ou se não fosse possível, ela poderia "zerar" essa história e recomeçar outras experiências futuras sob novos termos, sem precisar adoecer de novo, caso desencarnasse.

Ela me perguntou:
- Doutora, para isso preciso perdoar?
- Seria perfeito. - eu disse.
- Não, obrigada. - disse ela. Não quero abrir mão disso, não quero esquecer e não quero perdoar. Mesmo sabendo que isso me faz mal. Me recuso a perdoar.


Respeitei sua decisão. Precisamos aprender a respeitar escolhas mesmo quando achamos que temos  solução melhor. Ela estava consciente de sua escolha. Apesar de que, perdoar não lhe garantiria a cura real, nesse presente que vivia. Mas poderia aliviar o peso do seu coração. Ou talvez, numa teoria minha, evitar uma reencarnação onde poderia ter câncer na infância. Não nos perguntamos sempre porque bebês e crianças bem novinhas adoecem? Esquecemos da reencarnação nessas horas?




Ela morreu uns três meses depois. 
Lembrei dela hoje, ao ler um texto sobre o reflexo das emoções e o adoecimento. Espero que ela esteja em paz onde estiver. Que sua criança ferida tenha sido curada.

(Angela Cunha)

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