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segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Suicídio


Uma mulher bem vestida e muito bonita vem ao consultório relatando estar muito triste. Diz querer entender por que em seus relacionamentos amorosos sempre se dá tanto e recebe tão pouco. Sempre terminam a relação, sem que ela entenda o que aconteceu. 

Trabalhamos com algumas técnicas e percebemos que ela tinha o padrão cuidadora. Atraía homens que passavam por períodos difíceis e cuidava deles. Quando eles se recuperavam, esfriavam o relacionamento e terminavam. Provavelmente porque, estando fortes de novo, não necessitavam mais da cuidadora e ela permanecia sempre no mesmo papel, cuidando. Em alguns personagens de outras vidas, ela apresentava padrão de mulher servil, sempre sendo humilhada. Os desligamentos necessários em relação a isso foram feitos.

Apesar disso, ela não melhorava. Voltava sempre triste e chorosa. Comecei a me questionar: se muito já fizemos (cinco sessões) e não houve alívio algum, seria pertinente a queixa apresentada por ela? O que haveria por trás dessa queixa? 
Sugeri uma regressão de memória. 

No dia, ela teve imensa dificuldade em relaxar. Dizia não ver nada. "Não quero nada, não quero saber de nada, não quero pensar isso."  Pedi que ela focasse nas sensações do corpo. Dizia sentir algo na barriga. Fiz com que ela focasse no sentimento que a sensação trazia.

Então ela se viu num hospital com muita dor abdominal. Havia perdido um amor por traição e tomara veneno.
A dor aumenta e queima. Morre ali. Se vê num lugar fechado, sendo cuidada por algumas pessoas de branco. Ela quer sair dali, ser feliz. Acha que ali não está "vivendo". Quer viver de novo (parecia ter se arrependido do suicídio).
Então, ela diz: "Essa pessoa que está aqui não pode ouvir falar de veneno e já pensou em fazer o que essa moça fez. Essa moça sou eu".

Como ainda sentia dor abdominal, deixei-a uns minutos sendo tratada pela equipe extrafísica. Isso acontece algumas vezes com pessoas que passam por mortes dolorosas e mantém essa impressão na memória celular. 
Quando a dor desapareceu e ela se sentia bem e tranquila, conversamos sobre suas impressões.

E ela me disse: "Doutora,  eu tinha que cair aqui mesmo. Eu estava a ponto de fazer tudo de novo."

Nesse momento, entendi qual era sua queixa real. Era um profundo desespero e solidão, de quem anda pensando em suicídio. Antes ela não tinha admitido isso. Havia ainda uma ligação intensa com a perda e a dor dessa experiência. E tendemos a repetir padrões antigos indefinidamente, se não trazemos tudo à consciência.

Angela Cunha

6 comentários:

  1. Oi Flut, óia eu por aqui, vou curtir bastante seu blog ;)

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  2. Ótimo relato.

    Clarice Klein

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  3. Que história! Espero que ela esteja vivendo uma nova fase!

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  4. Ângela desde que meu namoro de 6 anos acabou tenho sentido minha criança interior berrar de dor todos os dias há mais de um ano. Recentemente minha ex me contou que estava com uma nova namorada, e desde então me questiono o tempo todo, pois justo ela que não sofreu nem metade do que eu pela separação pode refazer sua vida amorosa, enquanto eu...

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  5. Enquanto eu ainda estou cheia de saudades dos bons momentos e com pequena crença no real valor de amar alguém novamente, já que estamos sempre aprendendo, os erros que cometi em relação anterior foram corrigidos, só que por ironia perdi novamente o amor tão caro para mim, e desta vez por erros novos,ou seja de que adianta aprender, se acabamos perdendo mesmo assim. Será preciso ser perfeita para se preservar um amor?

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