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sexta-feira, 16 de março de 2012

Amor Próprio e Segurança


Era sua primeira regressão de memória desde que iniciamos o tratamento. Geralmente há muita curiosidade sobre histórias que já vivemos com outros corpos. Ela não parecia estar muito curiosa. 

Sua queixa principal era em relação a autoestima. Sentia-se insegura, não se amava do jeito que era, achava que a família não a amava muito, desde que o pai havia morrido quando ela era criança. Por causa disso passara a adolescência tendo conflitos frequentes com a mãe e a irmã, e havia se afastado muito do restante da família.

Logo que iniciamos, para minha surpresa, ela teve todas as impressões sobre o período de sua gestação. Vivenciou o amor e o cuidado de sua mãe enquanto a gerava. Lembrou o carinho com que ela tocava em sua barriga e conversava com ela. Lembrou das músicas que a mãe colocava para que ela ouvisse, lembrou-se das preces que a mãe fazia.

Percebeu a participação do pai nessa espera e o quanto foi desejada e querida. Viu a irmã mais velha, pequena ainda, rindo feliz quando ela nasceu. Sentiu-se de tal maneira amada e acolhida, que todas as suas teorias de não ser aceita pela família caíram por terra.

Chorou emocionada com essa descoberta.

Reclamava de uma sensação incômoda no umbigo e disse que isso acontecia desde que era criança mas não havia para isso nenhuma explicação médica. Não havia nada de errado ali, diziam eles.

Nessa regressão, depois que nasceu, acompanhou os cuidados que tiveram com ela, os carinhos, a amamentação. Até que seu umbigo inflamou, causando grande preocupação para sua mãe. Mas depois de uns dias, isso foi tratado e ela ficou bem.

No fim do trabalho, nos minutos finais, ela me disse que a sensação no umbigo havia se intensificado e que havia um ser extrafísico dizendo a ela que eles cuidariam disso naquele momento. Permanecemos em silêncio alguns minutos, com uma música suave no ar, e logo ela disse ter sido avisada que poderíamos encerrar pois o trabalho estava terminado.

Conversando depois, ela me disse estar muito emocionada com tudo o que viu e sentiu na gestação. E que haviam colocado um curativo no seu umbigo.

Na próxima consulta, ela me relatou que nunca mais sentiu incômodo algum no umbigo. Que a regressão havia mudado sua maneira de se relacionar com a família. Que havia marcado para o fim de semana seguinte a presença num aniversário familiar, com pessoas de quem se afastara há tempos.

Com o passar do tempo, essa melhora se consolidou e se sentia amada, acolhida, parte integrante dessa família. Tudo isso confirmou algo sobre o qual já havíamos conversado. Eu lhe disse que essas suas impressões poderiam não corresponder à verdade mas a um sentimento dela, apenas.
No entanto, ela precisou "lembrar" para acreditar.

Angela Cunha



3 comentários:

  1. A vida é muito mais do que acreditamos ver, do que nos contam, daquilo que permitimos sentir. ela vai além nesses pequenos traços que se interpõem no nosso cotidiano e que nem sempre com origem e explicações do aqui e agora.
    Tem gente que passa a vida sentindo dor inexplicável, que tem câncer , se trata, se cura e não procura compreender o recado da sua doença física e a oportunidade que se deu em curar-se. estar atento a vida e a nós tentando interagir é um caminho onde podemos de tempos em tempos abrir espaço para cuidar, regenerar, mudar. Beijo querida!
    San

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  2. A regressão de memória me parece ser um trabalho sensacional e leituras sobre esse assunto me atraem bastante. Adorei as experiências da pessoa citada.

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