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Traduzindo

domingo, 6 de março de 2011

Depressão


 Sem vontade de fazer nada. Sem vontade de levantar. Para quê? Fazer
comida? Limpar a casa? Procurar trabalho? Amanhã. Hoje não. Dá para ver
um pouco de televisão. Dá para chorar e rir. Chorar é mais fácil.
Lê o jornal e "Que mundo horrível!". Não dá vontade de fazer nada. Um amigo
convida para o cinema. "Hoje não, tenho compromissos." Compromisso com a
cama, com o sofá, com o suco, a comida que pede por telefone.
Só em questão de absoluta emergência tem de se vestir para ir ao banco. Toma banho, "Ah! Que delícia!".
As roupas ficaram apertadas. E agora? Veste com o zíper aberto, um casaco
por cima. Uh! Para o sacrifício da rua, das pessoas, do mundo sujo e
torpe, sem esperança, sem motivação, sem nada.
Como se fosse
branco-e-preto o colorido do céu azul, a nuvem branca, a parede
vermelha, a roupa verde, o sol dourado, a criança correndo, a senhora de
bengala, o executivo apressado no celular sem parar.
Caixa de banco,
olha para a fila e suspira. Chegou mais um. Ninguém me ajuda. Disseram
que o caixa eletrônico resolveria. Devagar vai atendendo - afinal, tem
tanto tempo e precisa não errar.
Na fila já se irrita. Demora demais,
que horror. Pensa que eu tenho todo o dia? Cara fechada, ranzinza.
Briga com um e com outro e se autoconfirma: "O mundo não presta, as
pessoas são más".
Volta para casa com sacolas de compras, de roupas, comidas, revistas, livros, CDs e DVDs.
De novo se enfurna na internet. Joga paciência, procura amor virtual
ouvindo música alto, cantando, para afastar o pranto. Conta piada no
telefone, reclama das contas, das pessoas, do desemprego, das
dificuldades. Retorna para a TV, para o DVD, para a cama - ninho
precioso, local abençoado, livre de tudo e de todos.
Encolhe-se de lado e dorme. Sonha com anjos e lobisomem. Campos de flor-
e trovadores. Campos arados e queimados. Bombas, pavores, amores,
tremores. Vira do outro lado e sonha.
Se um dia sonhasse que acordava. O que perceberia?
Depressão é passageira. Mesmo que esteja na direção, no controle central. Vem e
vai. Não se apegue. Não a segure. Deixe-a partir. Ela sai de leve se
você pára de reclamar. Se olhar para fora de sua gaiola. A porta está
aberta, a grade é de vento.
Será que Buda saberia ajudar a acabar com
a depressão? A pessoa até quer sair dessa trama, mas não consegue. Está
amarrada, presa, enroscada. É infeliz, sofre demais, doença danada.
O que é saúde? Cinco frutas por dia, dizia um senhor ao meu lado. Apenas a garça voando baixinho de volta ao ninho.
 

De repente, abre a janela, respira fundo, parece que ela se foi.
Arruma o quarto, guarda as roupas, leva outras para a lavanderia, toma banho,
se veste, lê o jornal, toma café, sai para levar o pobre do cão a
passear. Cumprimenta as pessoas, sorri.
Aquece-se com o sol. Árvore frondosa abraça e se firma. Vai fazer cursos, procura emprego, namora e se entrega à vida sem medo.
A depressão se foi.
Tudo é possível, mas fica uma sombra: E se ela voltar?
Não adianta fechar as janelas, pôr tranca nas portas, se esconder em algum altar. Ela pode voltar.

Então a receba, com dignidade. Conhecida deprê, venha me ver. Estou preparada
para recebê-la. Conheço sua manha, suas trapaças. Conheço bem os seus
disfarces. Já não me controla, já não me derruba, apenas me deixa com
mais algumas rugas.

Monja Coen

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